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CONGRESSO
FACULDADES SE UNEM NA DISCUSSÃO DE HISTÓRIA E
FILOSOFIA DO DIREITO NA MILTON CAMPOS EM AGOSTO

 
 

A Faculdade de Direito Milton Campos será uma das sedes do maior Congresso de História do Direito já feito no Brasil, que envolverá onze instituições de ensino superior no país em sua organização e movimentará, entre painelistas e conferencistas, 37 pesquisadores de história do direito, entre os quais os mais importantes nomes do Brasil e de Portugal.

O congresso terá como tema “Narrativas Alternativas: Do Antigo Regime à República” e será itinerante, sendo realizado em agosto em Recife (entre os dias 18 e 20), na FDMC (entre os dias 24 e 26) e em Ouro Preto (nos dias 27 e 28, na Escola de Farmácia da UFOP).

Além das palestras e painéis já definidos, haverá oportunidade para a comunidade acadêmica apresentar comunicações e sugerir novos painéis. As inscrições para participação, envio de comunicações ou sugestão de painéis já estão abertas nas secretarias das instituições organizadoras e pelo site www.filosofiadodireito.org.br.

Além da Associação Brasileira de Filosofia do Direito (Abrafi) e das três instituições anfitriãs - a Faculdade de Direito Damas, de Recife, a Faculdade de Direito Milton Campos e a Universidade Federal de Ouro Preto –, outras nove instituições participam da organização do Congresso: PUC Minas, Faculdade de Direito de Varginha, Faculdade de Direito de Conselheiro Lafaiete, Unipac, Centro de Estudos Superiores Aprendiz de Barbacena, Facesf de Pernambuco, FAL do Rio Grande do Norte e Curso de Ciências do Estado da Faculdade de Direito da UFMG.


Em busca da democracia étnico-cultural

O professor Lucas Gontijo, da FDMC, um dos organizadores, explica as propostas do evento:

Como nasceu a ideia do Congresso?
Lucas: Há anos venho pesquisando metodologia da história, sobretudo como pesquisador de história do direito com ênfase na historiografia dos povos de língua portuguesa e assim infiltrei-me gradativamente nos bancos de fontes primárias que Portugal dispõe. No ano passado, conheci alguns autores que estava lendo, como Rui Cunha Martins, da Universidade de Coimbra, e Antônio Pedro Barbas Homem, da Universidade de Lisboa, entre ouros, e destes contatos surgiu o congresso. Mas quem abriu esta porta no Brasil foi o professor Cláudio Brandão, de Pernambuco, que dá aula no curso de doutorado de Coimbra.

Depois, o projeto foi crescendo com novas parcerias, como a da Ordem dos Advogados do Brasil, do BH Convention & Visitors Bureau, do Instituto Brasileiro de História do Direito e da Fapemig, que têm colaborado decisivamente. Mas fundamental mesmo foi a participação de outras instituições de ensino e da Abrafi, que hoje tem grande penetração no meio acadêmico. 

Qual é a proposta do evento?
Lucas: O nosso Congresso contesta as formas tradicionais de enxergar a história. Não veremos nele a história oficial, ou a história das autoridades, dos grandes atos públicos. Ao contrário, propomos uma análise crítica das práticas jurídicas no mundo de língua portuguesa. Nosso objetivo é mostrar que é possível projetar diversos enfoques, estranhos às narrativas hegemônicas usualmente postuladas nas escolas de direito, e que estes enfoques são subsídios para a construção de uma proposta democrática para o Brasil.

A novidade deste congresso seraá discutir a relação entre os grupos identitários excluídos da história dominante - como os judeus, os escravos, os criminosos, os “invertidos” (terminologia da época para homossexuais), os degredados, os escravos -, sempre a partir de uma perspectiva transversal, de cunho antropológico e crítico, que possibilite compreender complexidades e diversidades culturais, por meio das práticas do direito civil, do direito penal, das técnicas administrativas. O congresso é de história, mas suas preocupações visam fundamentar o Estado pós-nacional, ou seja, o Estado do Século XXI.

E porque a escolha pela história dos povos de língua portuguesa, e em especial pela história dos excluídos?
Lucas: Porque devemos estudar a nossa própria história e não a história dos europeus centrais, como usualmente se faz no Brasil. A dimensão espacial do evento se configura em todo território de ocupação portuguesa, mas foca, sobretudo, a nossa própria odisséia. E isso implica efeitos e reflexos vindos das relações multiétnicas e multiculturais hauridas neste processo. Somos cafuzos, mamelucos, mulatos, mestiços de todos os tipos étnicos, judeus, árabes, mediterrâneos em geral. Temos por ancestralidade um povo que apareceu aqui para trabalhar e era pobre, sujeitado a técnicas de administração política excludente, violenta, em plena situação de adversidade, de dificuldade.   

Por isso precisamos de um prisma historiográfico capaz de estudar os aspectos antropológicos, sociológicos e jurídicos desta conformação multiétnica e multicultural. No campo jurídico, pretende-se observar as práticas da magistratura, das câmaras legislativas e das práticas advocatícias e policiais, assim como a subversão, a criminalidade e as insurreições sociais. Ou seja, observar como se desenvolvia o construto ideológico estatal-administrativo e a reação da sociedade civil, incluindo-se nesta os grupos identitários historicamente à margem do processo de garantia, de direitos, de segurança.  

Este é um congresso que congrega história do direito com filosofia do direito?
Lucas: Sim, o congresso é de filosofia também, não resta dúvida. Por este motivo é proposto pela Associação Brasileira de Filosofia do Direito. Pois desejamos explicitar, por meio de aportes da filosofia do direito, a complexidade subjacente aos conceitos de Estado Moderno e de direito, em contexto que descortina a história oculta ou não contada pela dita “versão oficial”. Quem e o que era este tal “novo mundo” em processo de estruturação política, pelo viés da tensão entre o tradicional (direito imperial português e direito canônico) e o novo (contingências específicas do processo de ocupação) e adequação às contingências de violência que aqui se plantaram? Como se formou este amalgama?

Então há, neste prisma, uma visão sociológica a ser trabalhada, digamos assim. O congresso tem um forte viés político, não tem?
Lucas: Claro, esta é mesmo a proposta dos mentores do congresso – e creio que falo aqui em nome dos professores Adalberto Arcelo e Cláudio Brandão -: desejamos trabalhar temáticas como a exclusão, a guetização, a sujeição pela violência, a segregação pelo poder de compra.  Precisamos muito construir uma crítica acadêmica, bem feita, aos sistemas político-jurídicos dos países de língua portuguesa e à sua historiografia forjada, manipulada, para assim abrir caminho à afirmação de diferentes grupos identitários que constituem estes povos e foram soterrados sob a ideologia de unidade político-estatal. Queremos, assim, buscar subsídios teóricos que viabilizem a emergência de discursos historicamente silenciados, criar condições de se fazer justiça, de se fundar uma democracia étnico-cultural.